Sucesso na Espanha,
autora canadense Catherine L'Ecuyer defende a volta ao simples e menos
estímulos eletrônicos para as crianças.
Silêncio, menos
telas, mais paciência, mais proximidade entre a família e a criança e maior
chance ao protagonismo na escola. Em uma palestra no Seminário Internacional de
Educação Integral, em São Paulo (SP), a canadense Catherine L’Ecuyer apresentou
os principais conceitos tratados no livro endereçado a pais e professores
“Educar na Curiosidade” (190 págs., Edições Fons Sapientiae).

Mãe de quatro filhos,
Catherine mora em Barcelona, na Espanha, onde trabalhou como consultora de
negócios, professora universitária e atualmente colabora com o grupo de
pesquisa mente-cérebro da Universidade de Navarra. Deste último trabalho, traz
uma compilação de “neuromitos”, conceitos de neurociência mal-interpretados que
são replicados de maneira errada na educação, como na brincadeira do telefone
sem fio. Entre eles, está a ideia do período crítico de aprendizagem que iria
do zero aos três anos. Bobeira, segundo ela.
Educação 2030: Pense em trabalhar habilidades, esqueça a
profissão
A autora canadense
também tenta pôr panos quentes na competição que muitas vezes começa na
educação infantil. Na esperança de estarem diante de um Baby Einstein, escolas,
pais e responsáveis precisam entender que “quanto antes e mais, melhor” é
equivocada. No livro, esta reflexão é explorada com maiores detalhes. “Eles não
vão ficar para trás. Não vão perder nenhum trem, porque o trem das novas
tecnologias não se perde. (…) A grande maioria das novas tecnologias que
existem quando a criança tem três anos provavelmente não existirá quando ela
chegar ao ensino fundamental, ao ensino médio ou ao mercado laboral”.
Durante sua
participação no seminário, a autora reiterou que não existem estudos que
defendam o estímulo ao uso de tecnologia nos primeiros anos de vida. Muito
melhor, segundo ela, é prestar atenção com a criança e à criança.
Veja abaixo 7 ideias que extraímos de sua apresentação:
1. Atenção prolongada é diferente de fascinação
A atenção é uma
atitude de descobrimento, de abertura ante à realidade sem o uso filtros. Isso
acontece quando a criança é protagonista de sua aprendizagem. A fascinação, por
outro lado, é uma atitude passiva, de alguém que está acostumado a receber
estímulos externos.
2. A verdadeira atenção nasce em contato com a realidade
A realidade cotidiana
deve ser encarada como um lugar privilegiado para a aprendizagem. É tocar a
terra úmida, morder uma fruta, observar gotas de água caindo. É preciso
resgatar atividades e brincadeiras que requerem paciência – em contraposição ao
ritmo frenético dos desenhos animados e jogos eletrônicos. “Não sei como é no
Brasil, mas na Espanha as crianças vão para a escola com tênis de velcro porque
não há tempo nem para desamarrá-los!”, disse.
“Não sei como é no Brasil, mas na Espanha as crianças vão
para a escola com tênis de velcro porque não há tempo nem para desamarrá-los!”
3. Sem sentido não há atenção
Existe uma frase da
autora Meg Wolitzer que nos ajuda a entender o presente: “É uma geração que tem
informação, mas não tem contexto. Manteiga, mas não o pão. Vontade, mas não o
desejo”.
4. Na infância, o jogo desestruturado é fundamental
O jogo é chave para a
aprendizagem porque permite às crianças serem protagonistas, como quando levam
um balde de água de um lugar ao outro na praia sem derramar nenhuma gota ou
quando planejam a construção de uma casa na árvore. Os estudos demonstram que
jogos desestruturados são importantes para o desenvolvimento das funções
executivas (autocontrole, planejamento, flexibilidade), habilidades que
influenciam o êxito acadêmico ao longo da vida.
5. Neuromitos
Segundo Catherine,
neuromito é uma interpretação errada da literatura de neurociência pelo campo
da educação. Como exemplo, a autora menciona o período crítico de aprendizagem
que iria do zero aos três anos de idade (há períodos sensíveis, mas não
críticos, ou seja, podem acontecer um pouco mais tarde). Outro, “é preciso
enriquecer o entorno das crianças para que possam aprender mais”, quando, na
verdade, isso não é necessário porque o cérebro tem uma produção de conexões
que é automática. E conclui: “Isso nos leva à situação de que mais é visto como
melhor, e por isso bombardeamos as crianças com estímulos”.
6. Multitarefa é a grande inimiga da atenção
A psicologia e a
neurociência dizem que não conseguimos fazer duas coisas ao mesmo tempo quando
precisamos processar informação. E isso encontra exemplos no mundo real. Um
estudo de 2007 menciona que a crença na multitarefa custou à economia americana
US$ 650 milhões em erros naquele ano – mesmo antes de WhatsApp entrar no lugar
de trabalho. Na educação, isso resulta em maior dificuldade de aprendizagem e
perda de sentido do conteúdo.
“Estou convencida que a crise educativa é uma crise de
atenção”
7. Sem atenção não há aprendizagem
Estou convencida que
a crise educativa é uma crise de atenção. Nas provas do PISA (Programa
Internacional de Avaliação de Alunos, feito a cada três anos), sabemos que a
partir do minuto 15 os erros tendem a se repetir com maior frequência. As
crianças precisam saber que estamos prestando atenção com elas. No ramo da
psicologia, é o que se chama de “atenção conjunta”. Antes de prestar atenção a
um objeto, a criança olha como seu principal cuidador olha o objeto. Se ele
olha com interesse, a criança faz o mesmo. Também precisamos prestar atenção
aos nossos filhos para que eles aprendam a prestar atenção.
Fonte: copiado de http://porvir.org














