De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2050
a resistência aos antibióticos causará mais mortes do que o câncer, se medidas
drásticas não forem tomadas. Recentemente, o professor Lindsay Grayson, da
Universidade de Monash (Austrália), durante o Congresso Internacional de
Doenças Infecciosas, realizado durante os primeiros dias de março em Buenos
Aires (Argentina), afirmou que “Se a compararmos com um incêndio, poderíamos
dizer que está se expandindo sem parar. E para contê-la não precisamos só de
helicópteros, mas também de barreiras”, disse Grayson. Sua proposta é focar-se
mais em conter as infecções do que em procurar métodos para vencer as
resistências. “Se não as controlarmos, o futuro será sombrio”, afirmou.
O problema é que as bactérias, pelo contato com os
antibióticos, seu uso equivocado e seu abuso, geram diversos mecanismos de
resistência; os remédios vão perdendo eficácia e são necessários outros novos e
mais tóxicos para combatê-las. Por ano, calcula-se, 700.000 mortes no mundo por
esse fenômeno.
Um dos grandes problemas é que o gado recebe quantidades
enormes de antibióticos. Mesmo seu uso para potencializar o crescimento sendo
proibido na União Europeia, muitos outros países continuam a fazê-lo. A
recomendação da OMS é erradicar essa prática e restringir o uso dos antibióticos
a animais que estejam realmente doentes. Estudos moleculares, entretanto,
mostraram que a transmissão direta das resistências de animais a humanos pode
ser menos importante do que outras, como as que ocorrem no contágio entre
pessoas. Os resíduos que a indústria farmacêutica lança em suas fábricas na
China e Índia são apontados como outra fonte de resistências.
Ao longo de dezenas de milhares de anos atrás, uma simples
infecção bacteriana que hoje se cura com oito dias de antibióticos podia
significar a morte. Isso foi alterado durante o século XX, quando se
desenvolveram os primeiros tratamentos antimicrobianos. Desde o começo, os
cientistas responsáveis por aqueles êxitos tinham consciência de quão efêmera
poderia ser a sua vitória. “Uma pessoa inconsciente que brinque com o
tratamento da penicilina é moralmente responsável pela morte de um homem que
sucumba diante de uma infecção por um organismo resistente à penicilina”,
alertava, em 1945, Alexander Fleming.
Há duas maneiras de as bactérias criarem resistência aos
antibióticos: por meio de mutações e adquirindo a capacidade de outras
bactérias. As mutações são mudanças espontâneas no material genético
frequentemente inúteis ou negativas, mas que às vezes possibilitam que os
micróbios gerem enzimas que desativam os antibióticos ou fazem desaparecer os
pontos que os tornam vulneráveis. Ao mesmo tempo, as bactérias podem transmitir
os genes que conferem resistência aos antibióticos reproduzindo-se, por meio de
vírus que transmitem sequências de DNA que lhes dão essa capacidade ou até
mesmo retirando-os do meio ambiente.

De acordo com Juan Pablo Horcajada, da Sociedade Espanhola
de Enfermidades Infecciosas e Microbiologia Clínica (SEIMC), “o simples fato de
utilizar antibióticos já implica o desenvolvimento de resistências”. “Há
bactérias que já são resistentes aos antibióticos, e, ao usá-los, faz-se com
que as que são sensíveis a eles desapareçam, enquanto as outras sobrevivem”,
acrescenta. “Com um tratamento curto demais ou prolongado demais, você irá favorecer
a seleção das bactérias resistentes”, assinala. No caso de um tratamento
prolongado, “você provoca a perda de um equilíbrio ecológico que só se recompõe
quando deixa de adotá-lo e se permite o retorno das bactérias boas”, conclui
Horcajada.
Em 2016, uma mulher de 49 anos se tornou a primeira pessoa
portadora de uma bactéria resistente à colistina, um antibiótico de último
recurso usado contra infecções mais graves. Segundo pesquisadores do Centro
Médico Militar Nacional Walter Reed, em Bethesda, no Estado norte-americano de
Maryland, a paciente sofria de uma infecção urinária provocada por uma versão
da bactéria E. Coli com uma mutação
do gene mcr-1 que a fazia imune ao medicamento. Essa mutação havia sido
detectada pela primeira vez na China, em suínos e em alguns indivíduos. Desde
então, apareceu em vários países de todo o mundo.
Os cientistas, que publicaram os resultados do estudo na
revista da Sociedade Americana de Microbiologia, Antimicrobial Agents and
Chemotherapy, acreditam que essa descoberta “anuncia o surgimento de bactérias
realmente resistentes a todos os antibióticos”. No entanto, outros
especialistas disseram que, apesar de esse tipo de agente patogênico ser
preocupante, não se trata de algo catastrófico, porque a colistina é apenas um dentre
vários antibióticos utilizados raramente. “É ruim, mas não é apocalíptico”,
afirmou, há algumas semanas, Makoto Jones, especialista em doenças infecciosas
da Universidade do Utah em Salt Lake City. No entanto, esse tipo de
superbactéria resistente volta a chamar a atenção para a necessidade de
utilizar antibióticos de um modo mais racional, tanto no tratamento de pessoas
como na aplicação em animais.
O uso e abuso dos antibióticos está provocando uma seleção
não natural das cepas de bactérias mais resistentes. Uma delas é o estafilococo
dourado (Staphylococcus aureus). O S. aureus é uma bactéria comensal, vive
na pele e mucosas humanas sem prejudicar seu anfitrião. Entretanto, em
determinadas condições que debilitam o sistema imune, ela se torna patogênica.
Seu grupo principal de vítimas são as pessoas hospitalizadas. Outra de suas
particularidades é que, desde meados do século passado, foi-se tornando
resistente a um número crescente de antibióticos. Estima-se que um terço da
humanidade foi colonizado pelo estafilococo dourado e estima-se que 70% da
população parece imune a essa bactéria.
Milhões de pessoas podem se salvar no futuro graças a uma
bactéria que vive no nariz. Cientistas alemães descobriram que o
microorganismo, o Staphylococcus
lugdunensis, produz um antibiótico natural que ataca um amplo grupo de
bactérias entre as quais se encontram algumas das mais resistentes aos
antibióticos. De acordo com a revista Nature,
os cientistas comprovaram que os narizes colonizados pelo S. lugdunensis eram território hostil para o S. aureus. Por algum
motivo, a primeira consegue eliminar a segunda. Isso foi comprovado primeiro em
cultivos. Analisando a ação de cerca de noventa espécies de estafilococos,
viram que algumas cepas do S. lugdunensis
impediam o crescimento do S. aureus, mas não de outras. Assim procuraram as
diferenças entre elas. Encontraram um componente que parecia ser o responsável
por essa capacidade bactericida. Chamaram-no lugdunin, ou lugdunina.
Ainda vai demorar para que a lugdunina seja testada em
humanos e mais ainda para que seja transformada em antibiótico comercial, mas
seu descobrimento, além do próprio valor terapêutico, pode ter outro efeito
adicional: Geralmente, os antibióticos são obtidos de bactérias do chão ou
cogumelos, a ideia de que a microflora humana também pode ser uma fonte de
agentes antimicrobianos é uma grande descoberta. Uma descoberta que levará a
muitos a ver de outra maneira as bactérias que os humanos carregam.
Fonte: https://brasil.elpais.com












