O vírus Zika (ZIKV) é um arbovírus que surgiu recentemente
no hemisfério ocidental. O ZIKV é transmitido principalmente por mosquitos
infectados, no entanto a transmissão sexual também foi documentada. O RNA
do ZIKV pode ser detectado no sêmen de homens infectados por até 6 meses após
os sinais clínicos iniciais. O ZIKV viável foi isolado dos espermatozoides e
os viriões do vírus ZIKV do ejaculado de homens sintomáticos são capazes de
infectar células durante a doença aguda. O RNA do ZIKV também foi
detectado por PCR a partir do ejaculado de homens vasectomizados. A
transmissão sexual do ZIKV deve ser considerada uma possível fonte de
disseminação adicional do vírus em regiões onde os vetores primários de
mosquitos não são endêmicos.

Em mulheres grávidas, a infecção pelo ZIKV, particularmente
durante a gestação precoce, está correlacionada com um risco aumentado de
defeitos congênitos, como a microcefalia. Os relatórios mostram que 5,8% a
8% das mulheres infectadas com ZIKV durante a gravidez tinham uma criança com
um defeito de nascença. O desenvolvimento de um modelo animal para avaliar
o potencial de transmissão sexual de machos infectados é importante.
Estudo em ratos mostraram evidências de transmissão sexual
do ZIKV do plasma seminal e do fluxo do epidídimo de infectados pelo ZIKV. Mostrou
também que doses supra-fisiológicas de progesterona durante a gravidez são
importantes em predispor as fêmeas à infecção intravaginal por ZIKV.
Um artigo publicado no The New England Journal of Medicine (2016),
relatatou um caso de infecção por ZIKV em uma mulher previamente saudável de 24
anos que vivia em Paris e que desenvolveu febre aguda, mialgia, artralgia e erupção
pruriginosa em 20 de fevereiro de 2016. Ela não estava recebendo qualquer
medicação, não havia recebido transfusões de sangue e nunca havia viajado para
uma região onde o zika fosse epidêmico ou para áreas tropicais ou
subtropicais. Sua última viagem fora da França foi para Okinawa, Japão, de
21 de dezembro de 2015 a 1º de janeiro de 2016. Um exame clínico em 23 de
fevereiro mostrou uma erupção maculopapular no abdômen, braços e pernas do
paciente e uma temperatura de 36,6 ° C. A doença durou aproximadamente 7
dias.
A mulher relatou contato sexual entre 11 de fevereiro e 20
de fevereiro de 2016, com um homem que permaneceu no Brasil de 11 de dezembro
de 2015 a 9 de fevereiro de 2016. O contato sexual envolveu sete episódios relação
sexual vaginal, sem ejaculação e sem uso de preservativo, e sexo oral com
ejaculação.
Populações de mosquitos Aedes aegypti e A.
albopictus não estão estabelecidas na cidade de Paris. Além
disso, na França, o período de diapausa da espécie aedes se estende de dezembro
a maio.
Três dias após o início dos sintomas, em 23 de fevereiro,
amostras de urina e saliva, da mulher, foram obtidas. A amostra de urina
apresentou resultado positivo para RNA do ZIKV. Estes dados suportam a hipótese de transmissão sexual (oral
ou vaginal) do ZIKV da mulher para o homem. Não podemos descartar a
possibilidade de que a transmissão ocorreu não através do sêmen, mas através de
outros fluidos biológicos, como secreções pré-ejaculadas ou saliva trocada através
do beijo profundo. A saliva do homem apresentou resultado negativo no dia
10 após o início dos sintomas, mas não foi testada antes. O ZIKV já foi detectado
na saliva, mas, até onde sabemos, nenhum caso de transmissão através da saliva
foi documentado.
Os atuais surtos de infecção por ZIKV devem ser uma
oportunidade para realizar estudos para entender a história natural do
ZIKV. É necessário definir melhor as recomendações para evitar a
transmissão do vírus. Em particular, orientações sobre por quanto tempo os
homens que estão retornando de uma área onde a transmissão ativa do ZIKV está
ocorrendo devem continuar a usar preservativos durante o contato sexual com
mulheres grávidas. Além disso, recomendações sobre a possibilidade de
transmissão oral do vírus através do sêmen são necessárias.
Trabalhos adicionais para identificar a fonte de
persistência viral no trato reprodutivo masculino e para esclarecer a presença
de partículas virais infecciosas na fase crônica da doença ajudarão no
desenvolvimento de terapias antivirais e direcionarão melhor as modalidades de
triagem diagnóstica para prevenir a transmissão sexual e anomalias congênitas.
Fonte: www.nature.com; https://www.nejm.org.
Acessado em: 01/11/2018







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