quinta-feira, 22 de março de 2018

Resistência a antibióticos matará mais que o câncer



De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2050 a resistência aos antibióticos causará mais mortes do que o câncer, se medidas drásticas não forem tomadas. Recentemente, o professor Lindsay Grayson, da Universidade de Monash (Austrália), durante o Congresso Internacional de Doenças Infecciosas, realizado durante os primeiros dias de março em Buenos Aires (Argentina), afirmou que “Se a compararmos com um incêndio, poderíamos dizer que está se expandindo sem parar. E para contê-la não precisamos só de helicópteros, mas também de barreiras”, disse Grayson. Sua proposta é focar-se mais em conter as infecções do que em procurar métodos para vencer as resistências. “Se não as controlarmos, o futuro será sombrio”, afirmou.
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O problema é que as bactérias, pelo contato com os antibióticos, seu uso equivocado e seu abuso, geram diversos mecanismos de resistência; os remédios vão perdendo eficácia e são necessários outros novos e mais tóxicos para combatê-las. Por ano, calcula-se, 700.000 mortes no mundo por esse fenômeno.

Um dos grandes problemas é que o gado recebe quantidades enormes de antibióticos. Mesmo seu uso para potencializar o crescimento sendo proibido na União Europeia, muitos outros países continuam a fazê-lo. A recomendação da OMS é erradicar essa prática e restringir o uso dos antibióticos a animais que estejam realmente doentes. Estudos moleculares, entretanto, mostraram que a transmissão direta das resistências de animais a humanos pode ser menos importante do que outras, como as que ocorrem no contágio entre pessoas. Os resíduos que a indústria farmacêutica lança em suas fábricas na China e Índia são apontados como outra fonte de resistências.

Ao longo de dezenas de milhares de anos atrás, uma simples infecção bacteriana que hoje se cura com oito dias de antibióticos podia significar a morte. Isso foi alterado durante o século XX, quando se desenvolveram os primeiros tratamentos antimicrobianos. Desde o começo, os cientistas responsáveis por aqueles êxitos tinham consciência de quão efêmera poderia ser a sua vitória. “Uma pessoa inconsciente que brinque com o tratamento da penicilina é moralmente responsável pela morte de um homem que sucumba diante de uma infecção por um organismo resistente à penicilina”, alertava, em 1945, Alexander Fleming.

Há duas maneiras de as bactérias criarem resistência aos antibióticos: por meio de mutações e adquirindo a capacidade de outras bactérias. As mutações são mudanças espontâneas no material genético frequentemente inúteis ou negativas, mas que às vezes possibilitam que os micróbios gerem enzimas que desativam os antibióticos ou fazem desaparecer os pontos que os tornam vulneráveis. Ao mesmo tempo, as bactérias podem transmitir os genes que conferem resistência aos antibióticos reproduzindo-se, por meio de vírus que transmitem sequências de DNA que lhes dão essa capacidade ou até mesmo retirando-os do meio ambiente.
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De acordo com Juan Pablo Horcajada, da Sociedade Espanhola de Enfermidades Infecciosas e Microbiologia Clínica (SEIMC), “o simples fato de utilizar antibióticos já implica o desenvolvimento de resistências”. “Há bactérias que já são resistentes aos antibióticos, e, ao usá-los, faz-se com que as que são sensíveis a eles desapareçam, enquanto as outras sobrevivem”, acrescenta. “Com um tratamento curto demais ou prolongado demais, você irá favorecer a seleção das bactérias resistentes”, assinala. No caso de um tratamento prolongado, “você provoca a perda de um equilíbrio ecológico que só se recompõe quando deixa de adotá-lo e se permite o retorno das bactérias boas”, conclui Horcajada.

Em 2016, uma mulher de 49 anos se tornou a primeira pessoa portadora de uma bactéria resistente à colistina, um antibiótico de último recurso usado contra infecções mais graves. Segundo pesquisadores do Centro Médico Militar Nacional Walter Reed, em Bethesda, no Estado norte-americano de Maryland, a paciente sofria de uma infecção urinária provocada por uma versão da bactéria E. Coli com uma mutação do gene mcr-1 que a fazia imune ao medicamento. Essa mutação havia sido detectada pela primeira vez na China, em suínos e em alguns indivíduos. Desde então, apareceu em vários países de todo o mundo.

Os cientistas, que publicaram os resultados do estudo na revista da Sociedade Americana de Microbiologia, Antimicrobial Agents and Chemotherapy, acreditam que essa descoberta “anuncia o surgimento de bactérias realmente resistentes a todos os antibióticos”. No entanto, outros especialistas disseram que, apesar de esse tipo de agente patogênico ser preocupante, não se trata de algo catastrófico, porque a colistina é apenas um dentre vários antibióticos utilizados raramente. “É ruim, mas não é apocalíptico”, afirmou, há algumas semanas, Makoto Jones, especialista em doenças infecciosas da Universidade do Utah em Salt Lake City. No entanto, esse tipo de superbactéria resistente volta a chamar a atenção para a necessidade de utilizar antibióticos de um modo mais racional, tanto no tratamento de pessoas como na aplicação em animais.

O uso e abuso dos antibióticos está provocando uma seleção não natural das cepas de bactérias mais resistentes. Uma delas é o estafilococo dourado (Staphylococcus aureus). O S. aureus é uma bactéria comensal, vive na pele e mucosas humanas sem prejudicar seu anfitrião. Entretanto, em determinadas condições que debilitam o sistema imune, ela se torna patogênica. Seu grupo principal de vítimas são as pessoas hospitalizadas. Outra de suas particularidades é que, desde meados do século passado, foi-se tornando resistente a um número crescente de antibióticos. Estima-se que um terço da humanidade foi colonizado pelo estafilococo dourado e estima-se que 70% da população parece imune a essa bactéria.

Milhões de pessoas podem se salvar no futuro graças a uma bactéria que vive no nariz. Cientistas alemães descobriram que o microorganismo, o Staphylococcus lugdunensis, produz um antibiótico natural que ataca um amplo grupo de bactérias entre as quais se encontram algumas das mais resistentes aos antibióticos. De acordo com a revista Nature, os cientistas comprovaram que os narizes colonizados pelo S. lugdunensis eram território hostil para o S. aureus. Por algum motivo, a primeira consegue eliminar a segunda. Isso foi comprovado primeiro em cultivos. Analisando a ação de cerca de noventa espécies de estafilococos, viram que algumas cepas do S. lugdunensis impediam o crescimento do S. aureus, mas não de outras. Assim procuraram as diferenças entre elas. Encontraram um componente que parecia ser o responsável por essa capacidade bactericida. Chamaram-no lugdunin, ou lugdunina.

Ainda vai demorar para que a lugdunina seja testada em humanos e mais ainda para que seja transformada em antibiótico comercial, mas seu descobrimento, além do próprio valor terapêutico, pode ter outro efeito adicional: Geralmente, os antibióticos são obtidos de bactérias do chão ou cogumelos, a ideia de que a microflora humana também pode ser uma fonte de agentes antimicrobianos é uma grande descoberta. Uma descoberta que levará a muitos a ver de outra maneira as bactérias que os humanos carregam.

Fonte: https://brasil.elpais.com

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